|
A PINTURA
NAÏF
Paralelamente
à produção pictórica considerada erudita, sempre existiu
tipo de pintura feita por artistas autodidatas, consagrada aos ex-devotos,
retratos de família, à recriação de cerimônias religiosas,
festas populares, trabalho no campo e na cidade, da natureza.
Esta pintura,
anteriormente desprezada pelos especialistas em artes plásticas,
ganhou surpreendente destaque na França, no início do século
XX, com o aparecimento de um caso extraordinário: o de Henri Rousseau,
também conhecido como Douanier Rousseau em função de seu trabalho
anterior como aduaneiro na Alfãndega Municipal de Paris.
Rousseau ficou
como paradigma, referência obrigatória, dessa casta de pintores.
Sua arte não se enquadrava nos moldes acadêmicos, nas tendências
modernas da pintura da época, nem conceitos de arte popular. Aproximava-se
alguma de alguma forma da arte infantil, da dos povos primitivos,
mas não se confundia absolutamente com elas. Por suas características
de pureza e frescor pictórico, foi considerado um pintor naïf
e sua arte naive, ou seja, um pintor ingênuo fazendo
uma arte ingênua.
A arte de Rousseau
era antinaturalista, isto é, não pretendia retratar a realidade
tal como ela é, mas como ele a via. Quando criava na tela
a imagem de uma árvore, simplificava o conjunto, destacava os galhos
e pintava folha por folha, de forma minuciosa e detalhista. Alterava
as proporções dos diferentes elementos de seus temas. Registrava
as formas anatômicas com total liberdade. e as cores, muito vivas
eram utilizadas a seu bel-prazer, sem compromisso com as cores naturais
de seus motivos, mas sempre bem harmonizadas. Sua pintura era figurativa,
narrativa, conteudística, temática.
Os pintores
naïfs sempre tiveram perfil semelhante ao descrito.
No Brasil são frequentemente chamados de primitivos, embora
outras denominações tenham sido propostas: instintivos, primitivos
modernos, ínsitos, ingênuos.
Iracema Arditi
é a mais destacada artista naïf brasileira. Sua
pintura, que recusa o prosaico para realizar-se no campo da expressão
poética, projeta uma visão edênica do mundo. Ela cria sua própria
natureza, com seus lilases encantados, azuis silenciosos, de verdes
poéticos, laranjas sonhadores, amarelos cantantes e vermelhos vibrantes.
Com pássaros, borboletas, outros animais, árvores finfileiradas
ou não, lagos, pontes, casais, meninos brincando, flores, muitas
flores... Ela faz pintura. Como nos "Sonhos" de Kurosawa, poder-se-ia
dizer que a pintura de Iracema floresce em baixo do arco-íris.
|