"Um país vegetal e mágico, paisagem tranquila com águas mansas de lagos e rios, legiões de enormes borboletas, pequenos pássaros em bando, numa inata sabedoria de cores, eis o mundo de Iracema em quadros cada qual mais pleno de paz. Recordo meu deslumbramento no primeiro contacto com a pintura da moça paulista, se não me engano em uma exposição na Galeria Cosme Velho. Essa sensação imediata de paz e amor na visão de um mundo ainda não afetado por toda a corte de desgraças que nos cerca e assassina a cada instante em todos os quadrantes de um mundo sem sentido. Iracema nos restitui a simplicidade, a ternura, uma plenitude de vida. Não por acaso sua pintura emocionou tanto a Pablo Neruda a ponto de escrever ao ver seus quadros: ´Fué como presenciar los primeros amores de la Tierra´.
Não por acaso outro grande poeta, o brasileiro Murilo Mendes, afirma recolher-se a um pequeno quadro de Iracema, pendurado na parede de seu estúdio romano, para fugir da ameaça da bomba atômica - na pintura de Iracema aflitos nos refugiamos, oásis de vida em meio às ameaças de morte. "

Jorge Amado
IRACEMA. São Paulo: Academus Galeria de Arte, 1978.